
Ontem eu estive mais uma vez no lar dos velhinhos de Pedregulho
O dia estava acabando e o sol já havia partido.
Entrei como sempre e logo me deparei com alguns idosos no amplo corredor
Alguns de cadeira de rodas, outros se movimentando lentamente apoiando-se na barra,
podia-se ouvir tosses abafadas e poucas conversas como de hospital, mas o silencio era notável.
Ao fim do corredor avistei o refeitório,
e enquanto caminhava para aquela grande porta,
fui passando pelos quartos.
Em cada porta havia algo que me chamava a atenção
Vi um filme passar diante dos meus olhos:
Um quarto escuro,
um quarto não tão escuro, com uma tela de uma paisagem à óleo,
um quarto vazio,
um quarto com uma velhinha calçando os sapatos e sendo amparada por uma enfermeira. .
Enfim... cheguei ao refeitório, e lá uma senhora muito simpática ajeitava a toalha de mesa sem perceber que eu havia entrado
Me aproximei, e ela virou-se pra mim com aqueles olhos azuis perguntando-me talvez sem consciência, se era a primeira vez que eu estava ali
Alguns idosos deram risada por que eu já estivera lá inúmeras vezes, e até já falara com ela.
Então sorri e toquei seu ombro, e ela continuou a arrumar a mesa
Senhor Santista, um velho bem alto e já muito doente, ficou contente ao me ver
E ao dar-lhe a mão para cumprimentá-lo ele ofereceu as duas com um gesto de carinho e gratidão.
Mesmo sabendo que estão sendo bem tratados, é triste pensar no fim.
Quando eu fui embora, o crepúsculo já se estendera por todo o céu
Estava tão lindo... porém, não havia ninguém para apreciá-lo
Então tudo me pareceu tão solitário que quase emocionei,
todos aqueles velhinhos sozinhos esperando por alguém,
não que seja triste envelhecer, é inevitável.
O que me incomoda mesmo é o modo como a maioria dos filhos jogam seus pais no asilo
alegando não terem tempo.
A vida é muito engraçada, começamos e terminamos quase da mesma maneira, como crianças.
Dedicado à dona Tarsila, uma velha amiga
( Imagem,Velho homem triste de Van Gogh)