
A neve caía na ocasião, mas o ambiente era agradável.
Sozinha, no aconchego de um bar, degustava seu vinho do porto.
Seu olhar pela janela do estabelecimento era de tristeza.
O branco da neve já não era tão branco.
Prestes a pedir outra bebida vira-se notando o olhar observador de um homem.
Acuada, volta seus olhos para a taça, enquanto o ser a espreita se aproxima:
- Posso te pagar um drink?
- Não, obrigada!
Pausa, silêncio, musica baixa tocando ao fundo.
- Você é linda, quero muito te conhecer.
- Desculpe, eu já estava de saída!
Continua a insistir, até que outro rapaz se aproxima sorrindo e adentra a conversa:
- Oi, demorei?
Aliviada, e agora com um semblante limpo, intercala:
- Que bom que chegou, achei que não viesse mais!
Num instante o intruso se afasta.
Ambos sorrindo se apresentam:
- Olá eu sou Paul.
- Prazer Paul, sou Lisa! Você me salvou.
- Só imaginei que estivesse em apuros
- E realmente estava...
Ambos sorriem novamente
Após algumas taças juntos ele indaga:
- Porque está sozinha em um bar em plena véspera de Natal?
- Talvez eu goste disso!
Dito isso, Lisa vira a taça, tomando o restante em um gole.
Sorrindo com apenas um canto da boca ele continua:
- Tens mãos finas, não é do tipo Amélia!
- Não sou mesmo!
Espalhafatosa, solta uma gargalhada que atrai até o olhar ligeiro do balconista.
Tentando voltar ao controle da situação ele continua:
- Oque você faz da vida?
- Sou enfermeira em um manicômio, um trabalho de merda.
- Está pra nascer um que não reclame do seu!
Totalmente ignorado, ele se coloca a ouvi-la:
- As vezes você é pra eles um pai, uma mãe; outras vezes eles não tem ideia de quem você seja, é frustrante!
- A vida é frustrante, só que há momentos excepcionais como este!
Com um sorriso singelo ela diz com voz mansa:
- Gostei, mas agora tenho que ir.
- Ok, nos vemos?
- Sim, no próximo ano véspera de natal estarei aqui novamente.
Ela se afasta, pega o casaco, a bolsa, abre a porta e some em meio a neve
E em um tardio grito ele pergunta:
- Mas e eu, como fico o resto do ano?