sábado, 23 de janeiro de 2010

Vinho tinto doce



 A princípio ela não aceitou
 Logo depois protagonizou o melhor dia de 2010
 Sim, ela foi!
 Ligou pra ele faltando apenas meia hora pra um casamento na qual nem conhecia os noivos.
 Feliz pelo convite aceito, ele se apressou em
buscá-la de motocicleta debaixo de um céu escuro prestes a desabar.
 Desceram os dois ladeira abaixo, ele de terno, ela de vestido
 Gaguejou antes da cerimonia ao ser surpreendida por uma senhora que perguntara quem eram os noivos
 O casamento não teve o beijo, nem o arroz
 O buque na verdade era um sapo, nada convencional.
 O vinho era tinto, e ela logo colocou-se a rir e deixar cair o guardanapo
 Estando de volta, os dois saíram da maneira que foram a cerimonia
 Divertiram-se na noite da pequena cidade mesmo sem terem pra onde ir
e sem se importarem com os olhares curiosos
 Procuravam um luau e acabaram no banheiro masculino de uma rodoviária
 Ao se despedirem, beijaram-se novamente
 Ele sorriu quando a escutou dizer que ela agora devia muito dinheiro a ele
 Então ele deixou a italiana na porta de casa e foi embora.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Canários


 Ele estava sozinho na madrugada,
andando pelas ruas desertas da cidade fantasma.
 Lembrou-se da vez que negou o pedido de casamento da garota do prédio
 Lembrou-se do canarinho no apartamento ao lado que não parava de cantar
 Lembrou-se também de sua avó sentada na cadeira de balanço dizendo que é triste não ter ninguém.
 Pra onde quer que olhasse só haviam luzes laranjas, escuridão e papeis de bala pelo chão.
 "Only Ones Who Know" era o que escutava no fone de ouvido
 Não havia ambição alguma, tudo estava acabado.
 Sentou-se junto a sarjeta próximo a um latão de lixo e la ficou a espera de alguém que pudesse carregá-lo, talvez fosse dia de quinta e tivesse a sorte de ser levado pela coleta de lixo.
 Espantou-se com uma luz que o ofuscou de momento, mas logo voltou a entristecer-se pois percebeu que era apenas um carro atravessando sua noite, talvez uma família feliz que resolvera viajar de madrugada e ali estava a passar zombando da sua tristeza.
 Aquele canarinho que se encontrava na gaiola, nunca foi solto, por mais que cantasse pra agradar seu dono, acabou como refeição do gato de estimação da casa.
 Ele estava com muita vontade de chorar,
e assim o fez sem ninguém por perto pra tentar impedir que suas lágrimas corressem.
 [imagem, contra capa do album de arctic monkeys]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fé


 Eu sei que isso talvez possa chocar alguns, mas eu não preciso esconder a verdade, ao contrário.
 Sou sincero quando querem escutar a verdade, mas quando a verdade pode machucar eu prefiro me calar, não creio que esse seja o caso.
 Há algum tempo deixei de acreditar em Deus, e eu não sei exatamente porque
 Talvez a perca de um ente muito importante tenha parcela nisso, mas não devo culpar ninguém, nem mesmo a situação, se eu deixei de acreditar que existe um Deus é porque eu escolhi assim.
 Sou agnóstico desde... desde... eu nem me lembro mais.
 Hoje eu estava aqui tentando pensar em algo pra postar, foi quando começou a tocar aleatoriamente uma canção nos arquivos do meu irmão, VEJA BEM, "meu irmão" ATEU desde que eu me entenda por gente.   A canção é "Sparrows Over Birmingham" do "Josh Rouse"
 E me tocou profundamente na parte em que diz:
"Oh, God was watching over you.
Oh,how those sparrows sang for you."
[Deus estava cuidando de você,
como os pardais cantavam pra você]
 Acabo de voltar da cidade grande
 Executivos bem sucedidos passavam fingindo não notar os moradores de rua que pediam esmolas
 A diferença social é gritante e desesperadora
 Se Deus existe mesmo, onde é que ele está nessas horas?
 Quem nunca teve fé?
 Isso move montanhas.
 Não acredito necessariamente em um Deus, mas acredito em algo que a humanidade ainda não desvendou completamente.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sobre o tempo


Estava eu em um blog qualquer quando li a seguinte frase:
"20 anos depois você vai evocar as suas fotos, e perceber de um jeito que você nem desconfia hoje,  quantas alternativas se escancaravam à sua frente".
Rafael diz: - eu não quero durar muito.
Dani diz: - Eu quero, mas quero durar bem!
Uma das ultimas conversas do ano de 2009
Dani diz: - Era minha mãe ao telefone dizendo que minha avó voltou pro hospital.
Rafael diz: - Ah sim, oque ela tem?
Dani diz: - Muitos anos de vida.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O homem do campo e a garota da cidade

 Ele saiu pra tomar um ar na sacada enquanto a festa rolava la dentro.
 A brisa gelada e o som abafado o trouxe de volta pra realidade, e lá estava ela fumando cigarros e apreciando a cidade do alto.
- Aceita um?
- Não, eu parei!
- "Qualé?"pega ae.
 Sem a pretenção de ser indelicado aceitou, levando-o a boca enquanto ela o acendia com seu isqueiro de bota de cowboy:
- Ei cara, você não é daqui, é?
- Não, eu sou do interior.
 Ela sorriu debochada e continuou:
- Eu logo vi, você é tão ingenuo, não é como a maioria dos caras.
- E como são a maioria dos caras?
- Ah mew, tipo... sei lá, eu te ofereci um cigarro e nem por isso você achou que eu quisesse transar com você!
- Eu te disse que não queria?
 E sem que o caipira esperasse ela soltou uma gargalhada como se não fosse mais parar, jogando pro alto a fumaça tragada.
 Calou-se aos poucos e lhe disse olhando em seus olhos:
- Você nunca colocou um cigarro na boca, não sabe nem segurar um!
- Claro que sei - disse ele, tossindo em seguida como um tuberculoso.
- Ah, esquece cara, ta a fim de dar o fora daqui?
- Pra onde?
- Ah mew, sei lá... curtir a madrugada que se aproxima, assistir o sol nascer bem longe...
- Eu não posso, estou de carona, logo tenho que voltar!
- Ah você quem sabe, o convite ta de pé, se estiver a fim é só me seguir... eu vou nessa homem do campo!
E por pouco, por muito pouco ele não a seguiu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Véspera de um Natal gelado


 Enfim, era véspera de Natal
 Não havia quase mais ninguém no bar.
 Ele olhava para o seu chocolate quente já não mais tão quente
 Estava praticamente debruçado sobre a mesa a lembrar do ultimo Dezembro.
 Voltava àquele bar periodicamente desde o primeiro e ultimo encontro
 Estava a sua espera a quase um ano, e então lá estava ela novamente
 Com seus longos cabelos escorridos pelos ombros, sua boca vermelha e seus olhos claros como o raso de um lago.
 Linda, ela entrou e pendurou seu casaco.
 Feliz e espantado em vê-la, sentiu algo quase como uma brisa vinda do vale invadindo o espírito.
 Sem querer sorriu ao vê-la, mas voltou ao semblante sério quando percebeu que ela o notara.
- Boa Noite Paul, este lugar está reservado? - perguntou ela sorrindo olhando pra cadeira à sua frente .
- Fique a vontade Lisa.
- As viagens de trem por essa região são extremamente geladas, eu quase congelei na vinda!
 Frio como a neve que caía la fora deu-lhe a resposta sem hesitar:
- Vou tomar nota!
- Ainda ta zangado comigo?
- Zangado não, eu apenas não entendo você.
 Calaram-se subitamente
 Ela levantou-se parcialmente da cadeira tentando quebrar o gelo e bagunçou-lhe o cabelo com as mãos dizendo:
- Não se zangue comigo, eu sempre volto.
 Tapou um breve sorriso com as mãos sem que ela percebesse, mas entristeceu-se rapidamente
 Fixou então os olhos trémulos em sua face pálida e pediu-lhe com anseio:
- Lisa, eu estou ficando velho, envelheça comigo!
- Eu não posso, não me vejo envelhecer ao lado de alguém, aliás... não me vejo envelhecendo, desculpe!
- Mas você vai!
 Calaram-se por alguns minutos
 Encharcado em lágrimas, levantou-se e disse afastando-se dela:
- Sabe do que eu tenho mais medo?
 Foi a vez dela calar-se agora, enquanto ele chorando dizia:
- De acordar um dia, olhar ao meu redor e perceber que meu único companheiro foi o tempo.
 Sem palavras ela continuou onde estava e acompanhou com os olhos o rapaz pagar a conta, pegar o casaco e sair sem se despedir.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sem título


Impressionante como tudo nessa vida é uma bola de neve, uma coisa leva à outra e no fim, nos questionamos se isso era pra ter realmente acontecido.

metrópole

metrópole
Estava chovendo lá fora

Preocupação com simetria, exatidão, ordem, seqüência ou alinhamento