terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

As pequenas coisas



 O sol brilhava fraco, já no fim.
 Seu olhar estava cansado, mesmo assim se esforçou
para assistir aos últimos raios, distribuídos parcialmente pela imensidão de montanhas e vales.
 Tudo era tão lindo e calmo que de imediato arrancou-lhe um pranto dolorido.
 Como pôde perder isso todos esses anos?
 Então, já com a face encharcada em lágrimas,
repousou suas mãos frias sobre os joelhos, suspirou e sorriu de olhos fechados.
 E quando já não restava resquícios de um crepúsculo jamais visto antes, colocou-se de pé e prometeu a si mesmo voltar.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Inspiração


Rafael diz:
- Preciso de inspiração.
Nuvem diz:
- Para que?
Rafael diz:
- Pra escrever um texto
Rafael diz:
- Vc eh o único cara mais sensível o bastante pra isso no meu MSN
Nuvem diz:
É mesmo? e sobre o que é o texto?
Rafael diz:
Não há texto,"ainda"

 E não havia
 Mas isso já não seria motivo pra um texto?
 Uma tremenda falta de inspiração, que nos faz pensar estar perdendo a total sensibilidade das coisas, buscando então ajuda em alguém que nem se quer conhecemos pessoalmente.
 Alguém cujo o nome é Nuvem que nunca vi a face e pode se desfazer como uma entre os meus contatos a qualquer momento.
 Alguém que aos 15 anos se vestia com um sobretudo quente e grosso do avô e subia no telhado em pleno verão pra ler.
 Alguém imensamente solitário, mas não triste!
 Às vezes tudo que nos falta é conversar com a pessoa certa no momento certo
mesmo que distante.
 Eu poderia ter escrito algo sobre a vida de alguém que está prestes a acabar, como a chama de uma vela,
ou um relacionamento breve como um crepúsculo.
 Talvez iria demorar um tempo, mas logo surgiria, eu sinto isso.
 Porém, a conversa que tive com o Nuvem me fez mudar o tema.
 "Viva a internet, viva os amigos virtuais!"
 E como os beatles disseram em uma canção: "With a little help from my friends"

Rafael diz:
- Eu vou nessa meu chapa, tenha uma boa noite
Nuvem diz:
- Boa noite pra vc tb, abraço.

Rafael desligou-se

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Quando acordar...


- Você foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos.
Eu te amei de verdade.
Agora me diz; você está viva em algum lugar?
- Não sei, isso é coisa sua!
viva ou não, livre-se de minhas cinzas.
- Eu estou tão sozinho.
- Claro que está, não me tira da cabeça,
precisa me deixar no passado.
- Porque está dizendo isso?
- Foi bom ver você.
- Espere; não quer entrar?
- Não, eu tenho que ir agora!
- Não vou mais ver você, não é?
- Nos veremos em sonhos iguais a este
- Queria que estivesse aqui quando eu acordasse
- Eu sei, cuide-se.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Um sopro de vida


Ao chegar, me deparei com a enferma deitada
Seus olhos então se voltaram pra baixo ao perceber minha presença.
Me aproximei lentamente avançando pelo quarto parcialmente iluminado
O silêncio era perturbador
Em torno da pobre haviam crianças
que na ânsia de saber o porque da minha presença quase se debruçavam em cima da acamada
Sua pele era tão frágil que tive medo de feri-la.
Em um momento tentou erguer um dos braços, em vão.
De imediato sua filha interceptou o movimento, pedindo a ela que se acalmasse
palavras de carinho eram frequentes
Queriam demonstrar a gratidão de uma vida toda no restinho de vida que talvez restara
A saudade antecipada de alguém que está prestes a partir talvez seja mais dolorosa que a própria perda
Pois a sensação de uma ausência iminente no presente instante é intensa.
Minutos depois ela se foi.
O silêncio pleno até então, foi quebrabo por lamentações em tom baixo
E meus olhos que fitavam a velha senhora cabisbaixa ainda em vida
se voltaram para baixo assim como os dela no momento da minha chegada.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dor


E quando se deu conta estava chorando por algo que conhecia muito bem
A saudade apertou seu peito de tal forma que não conseguia respirar, então o pranto doído foi sua válvula de escape
pois a dor que sentia era intensa demais pra suportar.
Pobre homem triste.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Prazeres


Passos dados rumo ao desconhecido
Comemorações realizadas
Datas de nascimento relembradas
Doenças anunciadas
A mentira mascarada
Os amores abandonados
As lágrimas derramadas
A dor sentida
Os pés sem chão
A morte em vida
A espera de um amanhã
Os prazeres da bebida,
da carne, do café... da vida.
A lua
A madrugada em claro
A pizza amanhecida
A verdade das palavras
A fortaleza em pessoa
A roda de amigos
As bobagens ditas
Os momentos, as carícias
As risadas
o mar.
O adeus, a despedida
O pranto
A solidão presente
e o amor ausente.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Véspera de Natal


A neve caía na ocasião, mas o ambiente era agradável.
Sozinha, no aconchego de um bar, degustava seu vinho do porto.
Seu olhar pela janela do estabelecimento era de tristeza.
O branco da neve já não era tão branco.
Prestes a pedir outra bebida vira-se notando o olhar observador de um homem.
Acuada, volta seus olhos para a taça, enquanto o ser a espreita se aproxima:
- Posso te pagar um drink?
- Não, obrigada!
Pausa, silêncio, musica baixa tocando ao fundo.
- Você é linda, quero muito te conhecer.
- Desculpe, eu já estava de saída!
Continua a insistir, até que outro rapaz se aproxima sorrindo e adentra a conversa:
- Oi, demorei?
Aliviada, e agora com um semblante limpo, intercala:
- Que bom que chegou, achei que não viesse mais!
Num instante o intruso se afasta.
Ambos sorrindo se apresentam:
- Olá eu sou Paul.
- Prazer Paul, sou Lisa! Você me salvou.
- Só imaginei que estivesse em apuros
- E realmente estava...
Ambos sorriem novamente
Após algumas taças juntos ele indaga:
- Porque está sozinha em um bar em plena véspera de Natal?
- Talvez eu goste disso!
Dito isso, Lisa vira a taça, tomando o restante em um gole.
Sorrindo com apenas um canto da boca ele continua:
- Tens mãos finas, não é do tipo Amélia!
- Não sou mesmo!
Espalhafatosa, solta uma gargalhada que atrai até o olhar ligeiro do balconista.
Tentando voltar ao controle da situação ele continua:
- Oque você faz da vida?
- Sou enfermeira em um manicômio, um trabalho de merda.
- Está pra nascer um que não reclame do seu!
Totalmente ignorado, ele se coloca a ouvi-la:
- As vezes você é pra eles um pai, uma mãe; outras vezes eles não tem ideia de quem você seja, é frustrante!
- A vida é frustrante, só que há momentos excepcionais como este!
Com um sorriso singelo ela diz com voz mansa:
- Gostei, mas agora tenho que ir.
- Ok, nos vemos?
- Sim, no próximo ano véspera de natal estarei aqui novamente.
Ela se afasta, pega o casaco, a bolsa, abre a porta e some em meio a neve
E em um tardio grito ele pergunta:
- Mas e eu, como fico o resto do ano?

metrópole

metrópole
Estava chovendo lá fora

Preocupação com simetria, exatidão, ordem, seqüência ou alinhamento